sexta-feira, 30 de novembro de 2012




JUSTIFICATIVA
(Desenvolvimento de projeto - FAC)
 
O Instituto de Pesquisa, Ação e Mobilização - IPAM é o executor deste projeto
Na década de 1930, Franklin Roosevelt, ex-presidente americano, imprimiu a seguinte frase; “Flag follows films” (“A bandeira acompanha os filmes”), o que significaria dizer, aonde vai o nosso cinema vão os nossos produtos. E, quando falava em produtos, Roosevelt não se referia apenas à Coca-Cola ou ao jeans, mas também justificadamente ao "american way of life", algo que ocupava um espaço enorme no mundo.

Em contraponto a isso, no inicio dos anos 60 nasceu o Cinema Novo, talvez para dar uma sacudida na realidade sócio-político-cultural brasileira, da mesma forma como o fizera o Movimento Modernista, cerca de trinta anos antes. E esse cinema novo nasceu com um forte compo­nente anti-imperialista para fazer frente ao modo de vida americano que fazia parte do imaginário da burguesia, e das camadas médias da população brasileira da época.

Pois bem, é nessa linha política que pretendemos caminhar. Caminhar na construção de um filme popular, tragicômico que fale de forma bem humorada do Brasil, dos políticos, sobretudo dos populistas e também do cinema novista.

No entanto, antecipadamente, deixamos claro que não estamos pretendendo seguir os mesmos passos do Cinema Novo, aquele cinema politizado, engajado até. Mas recriar, em tom de farsa, esse e outros períodos da história mundial, da nossa recente história e também da história do Cinema Brasileiro, proporcionando, desta forma, uma descontraída observação das nossas próprias dificuldades e impossibilidades, da nossa infinita procura pelo ideal, um bem que não existe na distância de nossas mãos, tampouco onde o nariz aponta, nem onde nossa vista alcança e que só poderá ser encontrada na Utopia de Thomas Morus ou em outras utopias, da mesma forma inatingíveis.

Pois bem, insinuações como estas certamente serão encontradas no filme que estamos nos propondo realizar. Pretendemos, quiçá, rir de nós mesmos, mas nada disso será perda de tempo. Tampouco será por maldade ou vingança, mas pela constatação de que, na maior parte do tempo, somos seres ridículos, finitos, breves, sem, no entanto, atentarmos para isso.

Finalmente, estamos propondo um projeto cinematográfico de maneira que possamos nos ver e nos identificarmos na tela do cinema. Seja a gosto ou a contragosto, já que, enquanto humanos, como já dissemos não passamos de seres imperfeitos, cheios de virtudes e defeitos. É portanto, o que se apresenta na nossa afirmação. E, como veremos, o niilismo acabará por negar a nossa negação.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Este projeto é patrocinado pelo FAC

Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal



ARGUMENTO CINEMATÓGRÁFICO
(Direitos autorais registrado)
 
 “O cinema não tem fronteiras, nem limites. É um fluxo constante de sonho."
Orson Welles

Rua das Lágrimas, 25

A Rua das Lágrimas, se a olharmos apenas superficialmente, parecerá tão-somente o nome de uma rua, de um endereço qualquer, de algum canto qualquer do Brasil. Mas, se olharmos mais atentamente, veremos que este é o endereço residencial do nosso personagem central e o local onde a maior parte da nossa dramaturgia irá se desenrolar, se desenvolver, se desvelar.

A Rua das Lágrimas poderia ser apenas mais uma rua comum na periferia dos grandes centros, não fossem suas contradições e seus matizes, com suas cores desbotadas, veladas até. Coloração que, inicialmente, nos dará argumentos suficientes para traçarmos um desenho - ainda que rabiscado do que representa, ou do pouco que restou - da vida de Yuri Silva, um velho jornalista ateu e comunista, que mantém sua fé inabalável ao que chamaram de socialismo real, ainda sonha com a revolução do proletariado e acredita que, mais cedo ou mais tarde, ela ainda vai acontecer. Para ele um dogma.

Velho, ultrapassado e atolado em profundas contradições, Yuri ainda se recusa aceitar até os insignificantes avanços tecnológicos, motivo que o empurra para um descompasso social, obrigando-o a usar uma antiga máquina de datilografia para escrever os textos e artigos mensais para um jornal alternativo de esquerda, que funciona nos fundos de sua casa, do qual é proprietário e editor, chamado A Martelada.

O tablóide é bancado, em parte, por recursos próprios, mas sua receita mensal é complementada com a distribuição e venda de exemplares pelos seus camaradas do Partido da Causa Revolucionária Operária da Esquerda Socialista Radical.

Foi através de uma doutrina religiosa e diária, baseada em um documento secreto, cujo enigmático título chama atenção: “A Economia Segundo a Sociologia Programática, Hermética e Revolucionária do Proletariado Latino-Americano no Terceiro Milênio”, a que os membros de tal partidos se submeteram, anos a fio, que a crença revolucionária saltou do desejo para o dogma.

O citado documento recomenda, entre outras práticas, combater o poder da Igreja Católica, sabotar a economia norte-americana, fazer frente ao avanço do capital europeu e criar uma república socialista, onde a felicidade, a riqueza, o dinheiro e fortuna sejam inerentes e pertencentes a todos os cidadãos. Quase a terra prometida.

Pois bem, é este então o projeto megalomaníaco cristalizado nesse povo que acende o desejo de promover a tão esperada revolução, e tal como em Dom Quixote, a paródia também se apresenta numa forma invulgar.

O protagonista entrega-se ao delírio, perde o juízo e acredita ter chegado o momento da revolução acontecer verdadeiramente e, de um momento para outro, se auto-intitula o cavaleiro da revolução.

E, assim, sem mais delongas, põe em prática um plano absolutamente surreal e um projeto impossível de lograr êxito, pois implica, tal como em Berlim, em construir um muro em volta de algumas ruas próximas a sua, separar parte do bairro, expropriar o terreno em nome do povo, instalar ali a nova República Operária Socialista Latino-Americana e requerer a sua independência e autonomia política.

Entretanto, antes de prosseguirmos, queremos deixar claro e bem entendido, que não estamos propondo realizar filme piada. Longe disto! Certamente, não perderíamos, nem tomaríamos vosso tempo com projeto nesta linha.

 Ao contrário, manter o foco e ir cada vez mais fundo no contexto histórico e na cinematografia mundial são nossos maiores propósitos.

Tanto é verdade que, como referência, citamos o notável filme italiano, do diretor Mario Monicelli, cujo título “O Incrível Exército de Brancaleone” muito nos impressionou. Nos anos 60, esse filme despertou um estrondoso interesse do público,  ao apontar críticas sociais, bem-humoradas, como os perigos da peste negra, os sarracenos, os bizantinos, os bárbaros e as relações sociais do feudalismo e o poder da Igreja Católica.

O filme mostra também o trinômio: guerra, peste e fome, que marcou o século XIV e relata a história de um grupo de maltrapilhos que rouba de um cavaleiro o título de um castelo, situado no feudo de Aurocastro.

Mas, para se apossarem do feudo, eles necessitam de um cavaleiro e acabam por encontrar Brancaleone! Um homem pobre, atrapalhado, mas bem-intencionado. Em sua jornada para tomar posse do feudo de Aurocastro, objetivo do qual é desviado em diversas oportunidades, muitas aventuras bizarras e surpresas acontecem.

Tal como em Brancaleone e travestido de “Cavaleiro da Esperança”, Yuri Silva começa a colocar em prática o seu audacioso plano de construir e tomar posse de sua própria república. Mas, antes de ver realizado o tão esperado sonho socialista e revolucionário, de um momento para outro, algo absolutamente inesperado e inusitado acontece em seu bairro. Mais precisamente na Rua das Lágrimas.

Certo dia, ao amanhecer, um pequeno pelotão do exército encarregado do combate à “dengue”, adentra o Bairro das Cinzas, onde se localiza a Rua das Lágrimas e, através do que chamaram de operação Aedes aegypti, em referência ao mosquito que se espalha pela população, iniciou ali uma operação absolutamente comum e rotineira de combate à dengue. Mas, uma infeliz noticia, que correu rapidamente pelas ruas do bairro, dava conta de que o pequeno pelotão estava ali para reprimir e por fim a tão sonhada revolução e, desgraçadamente, foi através dessa falsa notícia que a tragédia se anunciou e não tardou muito a se apresentar.

Na falta de comando e controle, o grupo revolucionário socialista partiu para um desastrado enfretamento com o pequeno pelotão, que acuado, passou forçosamente a se transformar em uma unidade de combate e repressão.

Ninguém em sã consciência poderia esperar que aquilo demorasse a ter fim tampouco poderia esperar ver apresentada ali força tão desproporcional contra aqueles pobres revoltosos quanto a que foi utilizada. O que se seguiu ao enfrentamento, foi o uso da forma mais truculenta que já se viu, ouviu ou se contou.

Bombas de gás lacrimogênio, cães treinados, tiros de borracha, cassetetes, carros de combate e até tanques de guerra se apresentaram para por fim àquela intentona maluca e extemporânea. Mas, o pior ainda estava por acontecer.

Em represália contra as ameaças das foices, enxadas e marretas usadas pelo povo, e das pedras, paus, tijolos e bombas caseiras que eram atiradas contra a força do exército, logo a polícia militar se somou à pequena tropa e as balas de borracha foram substituídas por balas de verdade, anunciando para breve um inevitável e infeliz banho de sangue.

Bastou poucas horas de combate para que a rendição dos revoltosos acontecesse. Não sem antes deixar espalhados, pelos cantos das ruas da Vila das Cinzas, dezenas de corpos estirados e dilacerados.

Por fim, derrotados, humilhados e acuados, foram obrigados pela força policialesca a derrubarem o muro que haviam iniciado a construção, para só depois serem levados acorrentados presos.

Ao fim da derrubada do muro foram levados a prisão, mas não ficariam muito tempo por lá. Após poucos anos de cadeia, foram convidados a assinar um termo de ajuste de conduta, inocentando a polícia e o exército pelas atrocidades cometidas durante a invasão. E, logo a seguir, psiquiatras diagnosticaram os sobreviventes como inimputáveis sociopatas portadores de loucura moral com desvios de conduta, transtorno da personalidade, transtorno bipolar, seres anti-sociais que não se conformam às normas legais, mas que não oferecem perigo algum nem ameaça à integridade de ninguém.

E consideraram que os processos pelas agressões existentes foram imputados à polícia militar e ao exército e não por eles. Pois bem, após julgados e os ânimos serenados, todos foram condenados a cumprir penas leves em regime domiciliar e a prestarem serviços comunitários por um período não inferior a dois anos.

Entretanto, tudo poderia ter finalmente se encerrado naquele final de contenda com a prisão domiciliar de todos os membros daquela falange. Mas, ironicamente, e como a ciência nos ensina que a melhor resposta é a que suscita novas perguntas, aquela prisão domiciliar foi o que faltava para que, mais uma vez, o grupo se organizasse através do mais extremado e saboroso delírio da loucura.

Pois, incrivelmente, desta feita baseado em Antônio Conselheiro, Lampião e Corisco, imbuídos e certos de que “maiores são os poderes do povo” formaram, mais uma vez, com os vizinhos e amigos da revolução, um grupo de jagunços e cangaceiros em seu melhor estilo.

Para dar prosseguimento ao processo revolucionário, juntaram cavalos, homens, mulheres e se armaram com o propósito de invadir o Congresso Nacional ou a Câmara Legislativa do Distrito Federal, sequestrar seu presidente, exigir o reconhecimento e a independência da República Operária Socialista, com sede na Rua das Lágrimas, no Bairro das Cinzas, assim como a sua imediata emancipação.

Naquela mesma noite, o novo prédio Câmara Legislativa foi cercado e, ao amanhecer - assim que os primeiros raios de sol cortam a fachada do prédio - cavalos, cavaleiros e cangaceiros estão postados e prontos para a invasão.

A ordem é dada, a vidraça foi estilhaçada e os cavalos invadem a entrada e os corredores da famigerada casa legislativa. Imediatamente, exigem a presença do seu presidente para que as negociações sejam iniciadas. Sem demora, o prédio é cercado pela polícia e o que veremos a seguir será um inusitado confronto de ideias, debates, discursos desconexos e vazios, promessas mirabolantes e ainda a apresentação de soluções e propostas totalmente fora de contextos e propósitos.

No pacote de exigências para o reconhecimento da republica socialista, além do reconhecimento da república, constam propostas mais que inusitadas, como a renúncia dos 70% e igualmente o fim de 70% das vagas parlamentares existentes. Além da pena de morte para os políticos corruptos, a construção, edificação e a colocação de uma estátua de Stálin na Praça dos Três Poderes, liberação da maconha e, finalmente, a decretação do Dia Nacional da revolução Socialista, com as devidas comemorações além de feriado nacional, dentre outras mais.

Mas uma vez, faço questão de voltar a dizer aquilo que já disse antes e afirmar que, definitivamente, não estamos dementes ao propor realizar um filme com este desenho e com essa decupagem.

Ao contrário, dentre outros motivos queremos prestar homenagens, aos nossos heróis nacionais: Antônio Conselheiro, Lampião e Corisco e, também, ao super-herói do cinema brasileiro que é Glauber Rocha. O cangaço, Corisco, Lampião e os conflitos sociais são a cara do cinema glauberiano. Portanto, não estamos perdidos.

Queremos ainda deixar desvelado que o Estado é, por vezes, ou por conveniência, irresponsavelmente ausente, de modo que, quando se faz presente, às vezes o faz equivocadamente, de forma autoritária, deixando ver seu desconhecimento do dia a dia e das necessidades do povo a quem governa, ou a quem deveria governar.

Portanto, serão certas idiossincrasias dessa massa popular que irão se antepor ao equivocado projeto político daqueles que, em busca da utopia, acendem uma luz para revelar um poder que se opõe ao seus sonhos.

Lá encontram apenas um discurso retórico, vazio e apodrecido por causas torpes, infames, ateias e não republicanas.  De fato, lá no fundo, realmente, não há muito mais do que isso! Aliás, a retórica será tudo o que se lhes apresentará como convencimento ou subproduto do debate. Isso, sim, lhes é singular.

Além disso, poderemos através desse debate, enxergar melhor e constatar, como é perigosa a tolerante proximidade entre a política e o poder paralelo e invisível da corrupção, com isso gerando a passível aceitação do crime.

Conclusão esta que poderá por fim a tão estranha e inusitada contenda, e é o que poderá abreviar o desfecho deste ultimo e fatídico ato dramático, sem que para isso seja necessário mais derramamento de sangue. 

Mas, para o nosso herói, melhor entregar a própria vida em troca do sonho, sonho que equivale viver a sua própria utopia. A utopia como forma de cidade, assim como Morus nos apresenta uma ilha imaginária onde todos vivem em harmonia e trabalham em favor do bem comum.

Um termo associado à fantasia, sonho, fortuna e bem estar, que são aspectos formadores do ambiente utópico onde se desenvolveu a sociedade utopiana, no país chamado Utopia ou Ilha da Utopia que era dominada pelo rei Utopus: Onde os habitantes aplicam o princípio da posse comum. E para abolir a ideia da propriedade individual e absoluta, trocam de casa a cada dez anos, tirando a sorte da que lhes deve caber.

Ele certamente não se furtará em abrir mão da própria vida em busca do sonho. Pois bem, a nosso ver, temos então aí uma excelente matéria-prima para a criação de um conflito dramático a partir desses sabores da culinária tragicômica, da semiótica, dos caminhos incertos, da busca de um ideal de felicidade, que não é possível encontrar, que não é possível existir e que jamais chegará.

Estamos, portanto, diante de uma caricatura da realidade e diante de um aparente abismo histórico. Mas onde começa a realidade?  Onde termina a insanidade? Mais, ainda: onde existe convívio social sem a presença dos conflitos? Desvios da personalidade?  Desejos, sonhos e loucura.

O certo, é que, montar em tom de farsa as sequências dramáticas de tudo o que narramos e tudo o que compõe a vida deste homem tão singular, será nosso melhor desafio. Poder entrar e sair de sua intimidade, de sua família e de sua loucura será um delicioso exercício cinematográfico, de imaginação e de criatividade.

Ainda mais se considerarmos que para ele, Yuri, a realidade não passa de um amontoado de loucuras. Pois, leitor assíduo que é de Santo Agostinho e Sartre, tem o prazer e a firmeza em dizer que o presente não existe.

Certamente, nosso grande desafio será imprimir em fotogramas e sequências, os sonhos beligerantes, delirantes, socialistas e comunistas desse Dom Quixote moderno ou rei Utopus, governador da ilha de Utopia, que tanto acredita ser possível concretizar na sua cidade os sonhos que não sucumbiram com a queda do Muro de Berlim.

Mas, para poder desvelar um pouco daquilo que tanto atormenta esse pobre homem, deveremos oferecer uma excelente contribuição ao surreal, ao ridículo, ao singular e ao existencialismo. Filosofia em que ele tanto acredita e que, diariamente, difunde entre os seus, na qual se deleita e que tem absoluta convicção do seu poder revolucionário e transformador.

Por fim, compreendemos verdadeiramente, que não é tão crível assim, para a maioria das pessoas, ver idéias se transformando em sequências decupadas e filmadas de forma coerente. Disso temos plena consciência. No entanto, o que nos move e que dá a certeza de que isso pode ser factível, é a possibilidade que o cinema nos oferece para experimentar. Dito isso podemos afirmar que sabemos que no cinema as coisas são mesmo assim, incríveis.  É como disse Orson Welles: “O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho”


Citações de Sartre e Santo Agostinho:

Para Sartre, “Estamos condenados a sermos livres...” "Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer...".

Já, para Santo Agostinho, o tempo não tem realidade em si “é uma invenção do homem, constituído por três nadas: o passado, que não existe mais; o futuro, que ainda não existe; e o presente, tão fugaz que é uma mistura de passado e futuro.”

Pois bem, construiremos então nosso personagem a partir destes dois fragmentos filosóficos.  

O Muro de Berlim

Durante 28 anos, de 1961 a 1989, a população de Berlim, ex-capital do Reich alemão, com mais de três milhões de pessoas, padeceu uma experiência ímpar na história moderna: viu a cidade ser dividida por um imenso muro. Situação de verdadeira esquizofrenia geopolítica que cortou-a em duas partes, cada uma delas governada por regimes políticos ideologicamente inimigos. Abominação provocada pela guerra fria, a grosseira parede foi durante aqueles anos todos os símbolo da rivalidade entre Leste e Oeste, e, também, um atestado do fracasso do socialismo real em manter-se como um sistema atraente para a maioria da população alemã.

Na manhã bem cedo do dia 13 de agosto de 1961, a população de Berlim, próxima à linha que separava a cidade em duas partes, foi despertada por barulhos estranhos, exagerados. Ao abrirem suas janelas, depararam-se com um inusitado movimento nas ruas a sua frente. Vários Vopos, os milicianos da RDA (República Democrática da Alemanha), a Alemanha comunista, com seus uniformes verde-ruço, acompanhados por patrulhas armadas, estendiam de um poste a outro um interminável arame farpado que alongou-se, nos meses seguintes, por 37 quilômetros adentro da zona residencial da cidade. Enquanto isso, atrás deles, trabalhadores desembarcavam dos caminhões descarregando tijolos, blocos de concreto e sacos de cimento. Ao tempo em que algum deles feriam o duro solo com picaretas e britadeiras, outros começavam a preparar a argamassa. Assim, do nada, começou a brotar um muro, o pavoroso Mauer, como o chamavam os alemães.

Berlim fora conquistada pelo Exército Vermelho em maio de 1945. De comum acordo, acertado pelo tratado de Yalta e confirmado pelo de Potsdam, entre 1944-45, não importando quem colocasse a bota ou a lagarta do tanque por primeiro na capital do III Reich, comprometia-se a dividi-la com os demais aliados. Desta maneira, apesar dos soviéticos tomarem antes a cidade, e também um expressivo território ao seu redor, tiveram que ceder o lado ocidental dela para os três outros membros da Grande Aliança, vitoriosa em 1945. Assim Berlim viu-se administrada, a partir de 8 de maio de 1945, em quatro setores: o russo, majoritário, o americano, o inglês e o francês. Com o azedar da relação entre os vencedores, em 1948 as quatro zonas reduziram-se a duas: a soviética e a ocidental. Em seguida, Stalin decidiu-se por um bloqueio total contra a cidade em represália ao Plano Marshall, que visava promover o reerguimento econômico da Europa destroçada pela guerra.

Todas as estradas de rodagem e de ferro que ligavam Berlim com a Alemanha Ocidental foram então fechadas pelos soviéticos, na tentativa de fazer com que os aliados ocidentais desistissem da sua parte na cidade. Ou saíam ou os berlinenses morreriam de fome e frio.